Nunca É Somente Sobre Música 2026 #1
- Christian Bits

- 26 de mar.
- 7 min de leitura
Atualizado: 20 de mai.
O independente não é um ponto único e pequeno dentro de uma pintura do mundo cultural, o artista independente é a norma e a composição verdadeira desse quadro. Ao rasparmos a camada superficial, descobriremos que toda a criatividade foi construída, antes, por pessoas e vidas reais, que são sistematicamente usurpadas e cobertas. A inquietação que sentimos é visível e crescente. Será que queremos mesmo um lugar nessa camada tão fina? Devemos nos adequar até deixarmos de ser um ponto estranho, ou nos impor pelo que realmente somos e queremos culturalmente? Se o material original é nosso, os rumos da nossa expressão também devem ser.
“Cuidado, mamãe, dizem que os gringos estão chegando... Droga, irmão, eu não quero aquela bomba, mas também não quero um compatriota acorrentado numa jaula, tão fundo no concreto que ninguém mais possa ouvir, virando um esqueleto. Droga, mamãe. Lá estou eu, ouvindo tiros... Será só mais do mesmo ou será só o começo?” El Café Atómico - Los gringos

El Café Atómico
Álbum: Bruxismo en la familia
Venezuela adentro, ouvimos músicas que vão da cumbia ao bolero. Enquanto guitarras se aproximam em um ambiente obscuro ao fundo, quase perdemos o que havia de tradicional. Como contos amargos de medo e terror, as canções anteveem o que viria a seguir, o sinal estava visível em alto-mar há meses. As ameaças passaram de manobras econômicas e distorções de imagem para imposições físicas e violentas, o medo agora atinge o chão e mata sem explicação. El Café Atómico, um dos muitos projetos do venezuelano Víctor Fernández Sellanes, nele trabalha ideias da cultura local com subgêneros experimentais do rock, subindo e descendo o tom conforme sua narração. Sem dúvida, a presença dos navais estadunidenses desde agosto de 2025 e sua iminente ameaça não poderiam deixar de ser sentidas em sua composição. Todo o álbum é construído sobre sentimentos de horror, mas sem foco em moralismo, evitando o risco de cair em falsa moralidade. A exemplo das imposições de constrangimento contra qualquer tipo de defesa da Venezuela, cuja consequência resultou, diante dos nossos olhos, em assassinatos, invasão e sequestro, um vizinho que pode não ser o último a sofrer algo assim. Talvez como alerta Víctor Fernández Sellanes descreve o álbum para o ouvinte da seguinte forma: 'Uma tentativa de olhar para a escuridão sem repulsa ou preconceito, e talvez até encontrar algo de si mesmo nela'.

O grande Ogro
EP: O grande Ogro
Em duas faixas instrumentais de post-rock agressivo, cujos títulos afirmam por si só um diálogo extenso, apresenta-se uma história de país que continua sendo atravessada. A falta de texto cantado não é uma licença para a isenção, pelo contrário, reforça a responsabilidade dos instrumentos que agem sonoramente argumentativos. O EP começa com "1500 (A vida é de quem já ganhou)". Sons calmos de ambiente e pássaros são tomados, em poucos segundos, pela invasão do trio sem aviso. Viradas de bateria dão sequência a ondas de riffs e ataques massivos. A guitarra acelera terreno adentro e a música se espalha, seus efeitos ressoam enquanto o caos, antes de cessar, desacelera. Ao fim, conseguimos ouvir novamente o som ambiente, mas agora vazio, sem os pássaros. Na outra ponta da história, a faixa "Fim da 6x1" inicia-se com uma bateria eletrônica, algo mecânico, como uma escala de trabalho sufocante. Essa introdução é ofuscada por batidas orgânicas graves: a vida contra a exploração desmedida. A banda soa como se nos chamasse à ação, o clima do ataque é diferente, vem de outro lado e de outra forma, direta e curta. Ao final, o EP abre espaço para o Grupo Raízes, em apresentação na Associação Cultural Beija-Flor, na cidade de Suzano, enfatizando a importância do resgate histórico cultural como parte fundamental para o nosso avanço no presente.

Skiving
Álbum: The Family Computer
O título invoca um marcador temporal. O computador e seu monitor de tubo branco, fixado no meio da sala e compartilhado por toda a família, transmite sensações perdidas. A representação de avanço depositada nesse eletrônico e o seu acesso ocuparam proporções diferentes, equilibrando-se na balança entre a esperança e a desilusão, contrastando o passado e o presente. Em seu álbum de estreia, a banda se localiza na inversão das expectativas geracionais rumo a uma autodepreciação quase cômica. Ao vivo, costumam se apresentar ao estilo de trabalhadores de escritório desleixados ou, por outro ângulo, trabalhadores exaustos logo após o expediente. A crítica ao mundo do trabalho acompanha a Skiving desde quando ainda se chamavam Human Resources (Recursos Humanos). A primeira faixa, "Ich Bin Ein Beginner" (Eu sou um iniciante), resume o tom, vai do nascimento às descobertas de uma vida cheia de amarguras ao repetir que "somos todos bebês, Eu sou um iniciante". Bebês frente a um mundo que retira, cada vez mais, nossa participação real. Iniciantes diante de um empenho que nunca parece ser suficiente. Ao longo do álbum, percebemos o cruzamento de dilemas sociais com diferentes fases da vida, destacando absurdos em um art-rock frenético com pequenos espaços reflexivos. Tentativa de alcançar a aceleração do mundo, que estagnou nossas vidas, abordando os detalhes do cotidiano alienado. Com ironias à mostra, uma delas passa quase despercebida, a arte da capa, que simula pixels em baixa resolução, foi na verdade, feita à mão em ponto cruz pela artista e amiga da banda Kate Weir. Se podemos reconstruir estéticas manualmente, por que não tentar reconstruir o futuro perdido de forma mais humana?

Mãe que dá Medo Single: Todos Os Homens da Magazine
Algo definitivamente necessário: novas bandas e novos produtores do audiovisual criando juntos. Otávio Santana assina um curta de vingança, criando uma sátira sobre a loucura dos coaches de financeirização. A banda Mãe que dá Medo colabora em duas faixas, a produção conta ainda com uma cena animada por Lucas Miranda Gonçalves. As músicas desempenham um papel fundamental em conjunto com as cenas. Essa jornada de vingança contra os algozes do investimento mostra a história de um cidadão que, após perder muito dinheiro, chega ao extremo de seu limite. Os comentários são pertinentes e engraçados, servindo como um lembrete de que essa “galera” ainda está por aí, ganhando fortunas ao fazer o povo de besta e causando desilusão sem remorso. No mercado financeiro, ganha mesmo quem tem acesso a informações privilegiadas, quem especula e cria movimentação artificialmente, o resto é loteria, isso sem contar as artimanhas de venda. Cedo ou tarde, a expectativa encontra a realidade e a bomba, que já estava à vista há tempos, explode. Por incrível que pareça, todos fazem cara de surpresa e o ciclo recomeça. Contra o ridículo, a vingança por achincalhamento cai muito bem.
"Se o objetivo é disseminar informação, por que tanto barulho? Por que distorções, vozes deliberadamente abafadas, insinuações mal captadas, fragmentações alucinatórias do áudio, gritos interligados? Por que não comunicar claramente? Porque a comunicação clara, e tudo que ela pressupõe, é a fantasia que o sistema projeta como justificativa e objetivo, eternamente adiado." Mark Fisher - Noise como anticapital (K-Punk)

Echo Upstairs
nossas sombras serão águas
A experimentação sonora é uma fuga do controle, uma tentativa de comunicar, de forma única e intraduzível, algo tirado de dentro que só acontece naquele exato instante. São caminhos indefinidos, imprevisíveis ao próprio artista em execução, alcançando novas descobertas. Isso é satisfatório artisticamente, porém totalmente indesejável para um sistema de valor mecânico que impulsiona apenas resultados previsíveis e fáceis de medir. Sem alarde, a Echo Upstairs lança um trabalho com uma veia mais experimental, mantendo pouca distância do álbum anterior. Talvez produzido em um pico de inquietação, já que até então, sempre foi mantido o equilíbrio entre beleza e ruído, aqui o ruído toma o protagonismo. Se o pessoal é político, o meio criativo para a nossa inevitável inquietação funciona como uma arma cultural de estímulo para novas direções.

回旋楼梯 The Step
Álbum: 在回声中止前
Before the Echo Fades
O incômodo é um motor artístico, e na China não seria diferente. Se hoje é possível encontrar uma gama de artistas em uma indústria cultural minimamente estabelecida, nem sempre foi simples, sua história carrega marcas de insistência. O rock chinês nasceu próximo ao período de transição econômica, essa primeira geração ficou marcada por restrições ao material estrangeiro e pelo acesso indireto a referências ocidentais muitas vezes via “mercados paralelos”, o que estabeleceu um dilema sobre o protecionismo. Ao mesmo tempo, a memória histórica das trágicas intervenções do imperialismo britânico reforçava uma postura cautelosa em relação à influência estrangeira. Com o passar das décadas, o atrito entre o rock e a ordem social mudou, e o gênero deixou de ser marginal para ocupar um espaço mais plural. É nesse cenário que surge a banda 回旋楼梯 The Step (Huixuan Louti The Step), carregando na sonoridade um incômodo mais contido, quase rabugento, mas ainda atravessado por tensões do cotidiano. Isso mostra que o contexto social também reflete na música como um espaço simbólico dessas tensões, onde persistem dinâmicas próprias de organização e conflito, como protestos e greves, vistos como parte natural do processo, sendo mais fácil para um país, que nunca caiu no neoliberalismo. Dentro desse ambiente, uma banda de amigos que estudaram juntos e tocaram pelo underground da cidade de Guangzhou, finalmente gravaram seu álbum, antes de cada membro seguir caminhos diferentes. Este álbum não representa somente a história deles, carrega junto tudo o que possibilitou esse exato resultado. (LINK)
Sustentabilidade demanda unidade. Enquanto não acreditarmos que modelos alternativos são possíveis, eles não terão chance de existir. Se nada for tentado, nada será aprendido ou construído. Se não compartilharmos, não existirá continuidade ou fortalecimento das nossas ações. A antiga fórmula do sucesso para um único artista/grupo isolado é conhecida, dentro desse modelo falido de acordos questionáveis, o artista se torna um frágil refém, com seu isolamento sendo reforçado. Bandas de décadas passadas, fisgadas pela grande indústria, muitas vezes terminavam ou abandonadas, ou levadas à exaustão. No Brasil, alguns grupos de destaque voltaram ao independente. A realidade é que o essencial sempre foi desenvolvido pelo conjunto dos pequenos, prestando serviços uns aos outros. De volta a nossa indagação inicial: É preciso se questionar até que ponto estamos apenas nos adequando ou realmente participando das mudanças que nosso meio precisa.
Voltamos a acreditar em alternativas. A sociedade e a arte foram afetadas direta ou indiretamente por conceitos como “Não Existe Alternativa” de Margareth Thatcher (There is No Alternative). Thatcher argumentava não acreditar na ideia de sociedade, que existem apenas indivíduos e suas famílias. Segue então o reforço ao individualismo e múltiplos ataques a tudo que é social, em nome de um mercado econômico sem rosto, enquanto Pinochet no Chile servia de laboratório, Ronald Reagan e o “Consenso de Washington” exportaram goela abaixo o modelo conhecido como neoliberalismo. Hoje, ecos dessa visão de mundo ressoam mais fracos, o incômodo sobre as limitações impostas e todos os desejos acumulados vão bater de volta. A cena alternativa resiste e se renova, sedenta por alternativas, se juntando em torno de novas iniciativas. Quando abrimos coletivamente caminhos participativos, novas possibilidades entram no horizonte, onde verdadeiramente temos agência em nossos espaços e impacto no futuro. Por esses e outros motivos que: Nunca É Somente Sobre Música.




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