Nunca É Somente Sobre Música 2026 #2 Ao Vivo + DJ Set
O acaso, só é possível fora de casa
Um jeito fácil de ser inspirado é sair de casa para ver algo novo, disposto e exposto ao risco de se surpreender. Incontáveis espaços culturais alternativos são locais de fomento criativo onde a divisão público/artista não é distinguível, marca característica do convívio em mesmo nível. Frequentadores inspirados têm caminho livre para participar e contribuir. Dia 27 de Março, no nosso querido espaço cultural Veganaassoo, esta coluna esteve representada presencialmente com uma seleção musical, dividindo espaço com as apresentações de DSKRTZ e Comunautas.
Shows no Veganaassoo
DSKRTZ (com MXRSP e Kepler 186f)

Nesse projeto instrumental, tocar ao vivo faz parte de um processo criativo autônomo. A reprodução exata de qualquer material gravado é indiferente, fruto de outro processo. O que de longe pode parecer audacioso, na verdade, é pura construção descontraída de um som experimental. Essa reunião foi tão viva, urgente e aberta que o som apenas se agrupava em momentos separados: Música 1 e Música 2. Nomear é como dar um fechamento a uma arte que se propõe a nunca ser fechada. Em contraponto, mas mantendo o espírito, o DSKRTZ tem nas plataformas um som chamado "Estamos em Obras", provavelmente sem pretensão alguma de ser executado ao vivo.
Comunautas

Na corrida espacial, enquanto os EUA tinham seus astronautas, a União Soviética tinha os cosmonautas, muito mais a cara desses comunistas espaciais. Atuando com conexão e mensagem direta, a presença marcante do violão é convidativa, sem suavizar o diálogo. O grupo aposta em performar e interagir, sem deixar espaço para dúvidas do que querem dizer. A banda revitaliza em muito o imaginário que estava congelado das grandes bandas nacionais, trazendo parte de sua estética sonora, com um posicionamento radical claro. Um efeito que pode se chocar com os desavisados.
Dois shows de formatos opostos dividem espaço e dilemas socioculturais. As duas apresentações, ao invés de destoar, compõem juntas o mesmo quadro.
Uma playlist objetiva
A diretriz aqui é música atual, uma estratégia para sensibilizar temas do nosso tempo. Pensar amplamente o agora nos força a estar em constante investigação dos porquês do atual estado das coisas e das diferenças estabelecidas. Sempre contra afirmações deterministas, ao super contextualizar o novo, inevitavelmente atingimos as evidências de suas origens. Um debate sobre o Hiper-Agora. Colocar atenção na produção artística viva permite continuidade. A arte criada por grupos sociais e suas diversas subculturas carrega não só o lado individual do artista, essas expressões existem por conta de tudo que veio antes, mas contêm a capacidade de contribuir para o que virá depois. Ao serem invisibilizadas por estruturas maiores, essa capacidade é tirada e a arte se desloca da vida. Essa pluralidade imensa sempre surge de baixo para cima, sendo fortalecida ao agregar nossos dilemas e hábitos. Uma potência que está mais próxima da nossa vida do que podemos imaginar.
“É mano, esse bagulho é doido, porque às vezes a gente fica tão viciado nessa repetição de ciclo, no famoso piloto automático, né! Como a galera gosta de falar, que a gente nem percebe as transições que acontecem entre uma repetição e outra”… ...“Tudo acontece entre hoje e amanhã” Lan, Joca (Tão bom lembrar)
Playlist completa
Sleaford Mods – The Good Life (f. Gwendoline Christie & BIG SPECIAL)
Renato Medeiros – Que Seja Com Coragem
Thee Oh Sees – Cara Maluco
computer fight – SUPER FEEDBACK SEE YOU LATER
Color for Shane – Mofo
Data Animal – Underdog
Dry Cleaning – Joy
Choncy – Dressing the Part
Wilza – Terapia
MX LONELY – Return To Sender
Ulrika Spacek – Picto
Winged Wheel – Speed Table
D'Artagnan Não Mora Mais Aqui – Hitmonlee (Sala Secreta Sessions)
RY-GUY – Dunja
guandu, Resp – Slow Down/ Vc Me Disse
Kim Gordon – PLAY ME
IPORÃ – Noite Adentro
Viagra Boys – Therapy II
Cashier – Like I Do
quedalivre – acaso
BALACLAVA – DRAMATIC EXIT
Ironchest – Mirror
Luggs – Start Stop
Schlop – Clássicos
Brat Farrar – Look Your Way
tigre robô – ATLAS (Remix)
Ain't – Grazer
Deafkids – CICATRIZES
Robber Robber – The Sound It Made
Mirror Revelations – Desafiar
Angine de Poitrine – Fabienk
Skiving – Ich Bin Ein Beginner
Sons Of Zöku – The Moth
Institute – The Shooter
回旋楼梯 – 恐怖分子 (the step huixuan louti - The Terrorist)
Gaijin Smash – Mountain
Cat Lover – In the Lights Sets
Barba Negra, Mistah Jordan – Conquering Lion
Public Enemy – She Got Game
LAN, JOCA – Tão Bom Lembrar*Playlist composta majoritariamente por músicas de 2026, com algumas poucas exceções de singles lançados no final de 2025.
Uma lista que vai de Guarulhos a Guangzhou, na China. Geograficamente distantes, mas com músicas muito próximas em seu tempo de existência, esse é o alvo de atenção que mais interessa.
Não importa quanta força seja feita para manter tudo estagnado, os efeitos do tempo são implacáveis e visíveis. Dentro desse ciclo, manter-se em silêncio é a pior forma de disfarce. O Color for Shane destaca essa imagem na música Mofo, sendo uma prova natural do tempo: quando só resta o mofo, resta apenas permanência e nenhuma ação. É muito fácil constatar que vivemos em um mundo de horror e destruição, como no primeiro verso de Joy, do Dry Cleaning. Na sequência, a vocalista e letrista Florence Shaw afirma para não desistirmos e segue até o fim repetindo sobre construir um outro mundo, agradável e feliz. Essa repetição textual não ignora o tamanho da dificuldade, ela invoca a necessidade de esforço. Reconhecer e apoiar abertamente a força nos outros é fundamental. Por isso, RY-GUY homenageia a existência e resistência das mulheres imigrantes através da música Dunja, indo contra uma estrutural xenofobia e machismo. Colaborar é um meio de amplificar a mensagem que, quando sincera, expande e adiciona dimensão, longe de ser um mero marcador de si na música do outro. Assim acontece com o Sleaford Mods em The Good Life, com as participações de Gwendoline Christie e da dupla BIG SPECIAL, fornecendo uma exposição em terceira pessoa do próprio Sleaford Mods. Uma reafirmação de trajetória e momento atual, em resposta aos questionamentos da crítica especializada sobre finalmente viver da música e permanecer autêntico: “Você sabe que uma boa vida é melhor para mim” (You know the good life's better for me). Falando de mídia, quando foi a última vez que uma banda fora dos grandes circuitos repercutiu tanto? Mesmo com parte da imprensa tratando o Angine de Poitrine como um mero entretenimento curioso, o fascínio por algo que provoca estranheza foi mais longe. Para além das fantasias e loops bem planejados, foram estimuladas em maior escala discussões sobre o uso do microtonal na música, que é milenar no Oriente, mas historicamente ignorada na teoria musical deste lado do mundo. Estigmatizar ou deixar de lado certas formas por conta da origem acontece até mesmo localmente, ao exemplo da injustiçada relevância do Brega: Renato Medeiros, em Que Seja Com Coragem, apresenta uma divertida homenagem a um dos gêneros mais nostálgicos socialmente e ignorados da cultura popular brasileira. Por que, então, algo é ou não um clássico? Segundo a banda Schlop: “Os clássicos são clássicos por uma razão”, assim como os sentimentos descritos na faixa Clássicos. Qualquer clássico permanece vivo por conta da sua manutenção ao longo dos anos. Quando Iporã inicia em Noite Adentro, temos presente na introdução a melodia de Carinhoso, exatamente o clássico brasileiro com o maior número de versões. Iporã atropela a introdução viajando no tempo com instrumentos tradicionais e modernos transformados em uma fusão única. Conseguimos perceber que a presença pontual de uma referência mexe com a imaginação para além do que é dito. Passamos da mitologia grega ao urbano no remix de Atlas, quando a Tigre Robô pergunta: “Como se dança com o mundo nas costas?”. Também vemos a atribuição de força quando D'Artagnan Não Mora Mais Aqui escolhe Hitmonlee (um Pokémon do tipo lutador) como nome de uma das músicas gravadas ao vivo no estúdio Sala Secreta. Já na parceria de Barba Negra e Mistah Jordan, a música Conquering Lion compõe a última faixa do terceiro volume do álbum Brazelda (Brasil + Zelda). Essa amálgama nos faz pensar no paralelo entre esses dois mundos, em certa medida, as batalhas de mundos imaginários conversam conosco, trazendo algum alívio nas batalhas diárias. A banda Computer Fight, em SUPER FEEDBACK SEE YOU LATER, não aguenta mais lutar além do expediente de trabalho, extravasando em um grito de "Sayonara". Para não ceder aos limites, Viagra Boys descreve precisar de mais sessões de terapia para si e para todos à sua volta em Therapy II. Já a Wilza, que comanda a música Terapia, manda abrirmos o coração, mas sem esquecer da conta no final. Com tanta coisa na mente, vamos desacelerar e passar por guandu em sua nova versão de slow down, agora como slow down / vc me disse. Expandida com uma narração bem-humorada e com a participação de Resp, guandu tem muito bem definido o que é e de onde vem seu som, mas se mostra capaz de avançar quando explora e brinca para fora do esperado, deixando explícito em: “Eu que não troco hoje por ontem”. Cada item dessa playlist carrega sua especificidade e universalidade, mas se fosse preciso escolher um tema mais universal, seria Acaso, da banda quedalivre. Aqui são apresentados fatores que vão além de um rock triste com melancolia bem trabalhada, são eles: o incômodo e o acaso. Nem todos estamos tristes, mas todos nós estamos incomodados. Para conseguir satisfazer nosso impulso por algo diferente, precisamos nos deparar com uma porta aberta. Permitir o acaso em meio às tentativas de mudança não é só contar com a sorte, é estratégia.





Bora sair de casa pra viver a rua! Escutar o novo! Textão preciso!