top of page

Nunca É Somente Sobre Música 2026 #3

10 de ago.
9 min de leitura

O monopólio da cultura, por si só, pode ser mais alienante do que qualquer mensagem nela contida. Gostar de uma música pop chiclete, difundida a rodo, é o de menos. Porém, admirar um artista como um ser especial, quase divino, totalmente fora da nossa realidade, gera, a partir dessa divisão clara, um efeito desmobilizante, inibidor dos nossos potenciais inexplorados. Lembra até o conceito também já difundido a rodo de “O meio é a mensagem”, de Marshall McLuhan. No nosso caso aqui, podemos dizer que a distância da sociedade em relação à produção artística é ao mesmo tempo, o modelo e a maior mensagem vinda de cima para baixo. O conceito manifestado na frase Kill your idols (mate seus ídolos), já antiga no mundo underground, grita contra tamanha concentração. Vale se perguntar: o que aconteceria se a distribuição do que é produzido fosse mais igualitária? A eliminação completa do ídolo passa pela mudança dessa relação. Conexões diretas e suas expressões reais impactam na nossa força social. A arte fortemente ligada aos participantes de um meio é uma ferramenta cultural que faz frente a tudo o que de antemão nos é negado. Não tenha ídolos, torne-se parte da arte.

“Salve, salve. Tem uns que vive de rap, mas, Tem uns que vive fazendo rap” “Respeite a cultura, senão você leva um couro Falar é pique prata, ouvir é tipo ouro” SonoTWS, Kong Cutz, Thestrow Música: Sempretemsom
Se não Sabe Agora Sabe Vol. 1
Se não Sabe Agora Sabe Vol. 1

SonoTWS Álbum: Se Não Sabe Agora Sabe Vol. 1

Rap não se faz isolado dos outros. Permanecer conectado e envolvido com seus pares não é uma obrigação, é o verdadeiro sentido de tudo o que constitui o rap e toda a cultura hip-hop. O beatmaker em projeção SonoTWS sempre destaca amar fazer boom bap, enquanto mantém plena atenção ao que acontece em torno de toda a cena, sem distinção de tamanho. Neste primeiro volume, de “Se Não Sabe Agora Sabe”, nome bem sugestivo, 15 MCs que movimentam parte da cena independente colaboram perfeitamente em 13 faixas. Elas resumem uma visão coerente, ao mesmo tempo que expõem o melhor lado dos convidados, que são: Kong Cutz, Thestrow, Alra Alves, Ca$hline, Bonsai, Caio Ocean, Eveline PJL, Qualqpa, nabru, Baby Moi, AK’him, Vector Coletivo Delta, sopapreta, yung vegan e $carpa. É provável que esse projeto não alcance os números nem o nível de prestígio dos trabalhos anteriores de SonoTWS, porém é aqui que ele se prova um grande maestro pois, como dito durante a primeira faixa: “escutar é tipo ouro”.

"Banzeiro: É como o povo Xingu chama o território de brabeza do rio" - Eliane Brum
"Banzeiro: É como o povo Xingu chama o território de brabeza do rio" - Eliane Brum

Cáustico

Álbum: Banzeiro


Já estão entre nós os elementos de uma distopia de futuro. Transições drásticas nunca chegam de uma vez, a água vai esquentando aos poucos, é possível sentir a temperatura até certo ponto. Em seguida, é impossível não se queimar, só um novo processo de mudança altera um cenário que já ferveu. A banda Cáustico entra, com o álbum Banzeiro, na disputa pela escrita gradual do futuro, trazendo alertas e diagnósticos atuais. É uma expressão que choca o noise e o punk em uma violência caótica, em um mundo onde a tradicional violência disfarçada de ordem vem assumindo sua verdadeira face. Nesse cenário, magnatas das big techs defendem modelos ainda mais caóticos para a vida social, vendendo antecipadamente a solução: um forte controle autoritário formado em consórcio com monopólios tecnológicos (como descrito no manifesto da empresa Palantir). Essa ideologia tecnofascista começa a ser gestada e não alcançará a hegemonia de uma hora para outra, a exemplo do neoliberalismo que, apesar de hoje parecer moribundo, perdura há décadas. O modelo econômico neoliberal foi sendo sugestionado e induzido goela abaixo por anos, até ter sua implementação consolidada sob o capitalismo, virando a regra no exato segundo em que o caminho ficou livre de obstáculos e a aceitação foi suficiente. Os temas destacados neste álbum são questões que exigem atenção hoje, antes que, amanhã, ideias perigosas tomem a frente. O ataque se infiltra em todos os segmentos gradativamente, enquanto o silêncio consente, o barulho é o contra-ataque que precisa ser sentido no ar, pois estamos lidando com um bando de covardes. O álbum faz referência à pesquisa da escritora Eliane Brum, e o termo em Xingu, "Banzeiro", amarra-se ao título como um manifesto de sobrevivência. Reforça a importância de não banalizar os absurdos transformados em rotina, algo que urge por nossa total e completa rejeição. O futuro nunca é inevitável, caso contrário, tanto esforço gasto para nos convencer seria dispensável. Mesmo que esse estilo sonoro não seja o seu favorito, garanto que vale a atenção, principalmente acompanhando as letras. É fofinho? É agradável? Claro que não! Aqui se encontra a exposição de uma revolta!

Baião (Agro é tech)
Baião (Agro é tech)

Banda Dona Helena

Single: Baião (Agro é tech)


Não existe a menor condição de ouvir “O agro é pop” e não achar ridículo de imediato. Vindo de uma indústria agressiva, soa exatamente como é: uma propaganda fajuta e nada orgânica. O sabor de falso ocupa vários sentidos, com sua representação máxima no autointitulado agronejo, que tenta, de forma nada natural, suplantar o imaginário da música popular, esparramando produtos formulados repetidamente. Tudo só fica pior ao perceber o caminho de alinhamento ao country estadunidense. Qual a resposta que um power trio de rock de Guarulhos pode sacar? Por que a referência ao Baião? Segundo pesquisadores com amplo conhecimento na canção popular, como José Hamilton Ribeiro e Zuza Homem de Mello, podemos compreender que a música sertaneja é a música de todo o sertão brasileiro, um guarda-chuva para diversas manifestações sertanejas. Sendo assim, temos o Baião, originário do interior nordestino e fortemente ligado à cultura do sertão e às dificuldades desse povo, com Luiz Gonzaga sendo seu maior representante. Por outro lado, quando falamos do que originalmente é a cultura caipira, estamos falando de hábitos vindos a partir dos antigos povoados fundados pelos bandeirantes no interior de São Paulo. A cultura caipira e sua música se difundiram, com o ciclo do café e do agronegócio, para a região Centro-Oeste. Com o sucesso e o uso pejorativo de seu termo original, preferiu-se a utilização do nome "sertanejo". Ou seja, hoje esse sertanejo que tenta se assumir como moderno é uma segunda tomada ainda mais higienizada e completamente desligada da vida do que se denominaria povo sertanejo. Para reforçar o embate, esse single tem o suporte adicional da flauta de Ada Bellatrix (Banda: Flor Et) e da segunda guitarra de Gabriel Nobre (Banda: Dona Olga). O resultado é uma mistura de rock e psicodelia que usa referências como resgate e transformação. Isso difere da nostalgia, que pode terminar em uma simulação estática que nunca nos provoca. Dona Helena disserta uma provocação sobre a ideologia imposta pelo agro e sua violência. Mostrando o caminho inverso de sobreposição do alvo, a banda se aproxima do popular, cria e valoriza, partindo de uma escolha que não poderia ser mais significativa: o Baião.

Varado
Varado

Varado

EP: Varado


Encontro de caminhos de construção com impacto que reverbera, em uma relevância que vai além do tamanho. Com extensa participação nos bastidores da música alternativa, Fabrício Nobre (MQN) e Anderson Foca (The Sinks, Camarones Orquestra Guitarrística) têm em comum a característica mais importante para um fomentador do meio artístico: eles querem ver a cena acontecer. O reconhecimento é consequência de anos de trabalho para além de si mesmos, algo que não começa nem termina em grandes eventos, como o Festival Bananada, do qual Fabrício é um dos organizadores, e o Festival DoSol, idealizado por Anderson. Contudo, é excelente ver que lá dentro, esse olhar permanece. Quando se apoia um meio, busca-se criar estruturas de base. Muito do que acontece é de valor imaterial. Formas impossíveis de medir e efeitos que vão além da vista. Isso é relevância. Não é possível calcular o exato impacto das ações que realizamos. Convergindo trajetórias, esse lançamento caminha na contramão de atitudes de mente fechada. Atravessando, ou melhor dizendo, varando relações com o tempo e nosso papel na sociedade, o projeto simboliza um encontro não só de gêneros similares, como garage e punk, mas um encontro do mesmo espírito. O mais interessante, além do próprio EP que é cru e direto, é ir atrás das pequenas histórias desses personagens, nas quais vemos que cada movimento importa. Ainda há hoje quem afirme ser impossível criar uma cena musical fora do eixo Rio / São Paulo. Varado chega com experiência acumulada e indiretamente, manda o recado: difícil não significa impossível.

Existir é Resistir
Existir é Resistir

Trash No Star

Allbum: Existir é Resistir


O que estaríamos ouvindo se a ideia de Girl Power não tivesse sido deturpada? Se o movimento riot grrrl e seu manifesto profundamente feminista e anticapitalista não, tivesse sido silenciado? Durante os anos 90 um dos marcos da chamada Terceira onda feminista, foi a frente cultural de bandas lideradas por mulheres. Classificar períodos do feminismo como ondas pode passar uma noção problemática, a onda tem um pico, mas ondas passam, enquanto os dilemas não resolvidos continuam. Trash no Star descreve seu novo álbum Existir é Resistir, em seu bandcamp como um trabalho que: “transforma angústia social, precariedade e deslocamento em ruído, melodia e permanência”. O seu antecessor e primeiro álbum completo: foi Single Ladies lançado em Julho de 2013, um mês após grandes manifestações, serem tomadas pela direita, a tal das jornadas de junho de 2013, ponto fatídico, aos debates sobre nossa atual divisão política. Na decada de 2010 se falava de quarta onda feminista, atrelada as teorias de ciberfeminismo, com atuação e organização via internet. Porém o mundo digital foi inundado por um crescente levante machista, onde se sucederam ataques de ódio, em parte destinados à presidência de Dilma Rousseff, e a qualquer movimentação ligada ao direito das mulheres. O Partido dos Trabalhadores, vinha com alta de popularidade entre o fim do mandato anterior e os primeiros anos de Dilma. Parte da grande mídia, ansiosa por uma queda, não só ignora os ataques de imagem e reputação, como não teve nenhum pudor em veicular peças publicitárias, contra a legitimidade de uma mulher eleita democraticamente. O caminho para grupos de extrema direita foi pavimentado e estava livre para crescimento. As manipulações políticas seguem tranquilamente. Temos um grande embate eleitoral em 2018. A campanha #EleNão, contra aquele que era o avatar vivo de todos os preconceitos imagináveis, fica marcada como fracassada, por conta do resultado eleitoral, porém vale olhar com mais cuidado. O #EleNão, atinge tamanho e repercussão notável, com certeza deixou algum efeito. A batalha era difícil. Vencer em um mês, uma plataforma machista, crescente durante os anos anteriores, formando direta e indiretamente, eleitores para o seu exato candidato. A atuação não pode ser apenas pontual, é preciso continuidade, ao exemplo de como as ações para manter viva a memória de Mariele Franco, ganharam tração. Essa cultura de enfrentamento, encarava muita truculência, mas desestabilizava o outro lado, assim, o caso de uma vereadora e ativista proeminente, assassinada, teve chance de avançar. O Álbum Existir é Resistir, surge hoje, não sem antes a banda fazer uma série de shows e alguns singles pelo caminho, enquanto o mundo virava de cabeça para baixo. Para firmar posição, não em onda, mas em permanência, ao gritar que só quer estar com garotas, ao elogiar uma outra mulher, apresentar acolhimento e afastar os medos. Fica evidente que para Trash no Star, a busca de inspiração na movimentação cultural dos anos 90, não representa voltar ao passado, representa o desejo em dar continuidade e vida às forças que já existiam lá. Existir é uma reação de resistência.

Foto por: Daniel Agapito, @dhpito linktr.ee/dhpito
Foto por: Daniel Agapito, @dhpito linktr.ee/dhpito

Nigéria Futebol Clube

Show no Sesc Pompeia (2026/04/18)

Uma Não Resenha


Quando um amigo viu a repercussão dessa apresentação, me perguntou se os jovens membros do NFC poderiam se tornar ídolos de uma geração. Eu respondi que a trajetória deles vem projetando algo muito melhor. Essa reflexão inspira a introdução lá em cima, resumida em: "Não tenha ídolos, torne-se parte da arte". A banda e quem participa à sua volta vêm colecionando momentos únicos; esse episódio no Sesc é um cartão de visita aos desatentos. A festa foi do Nigéria FC e, sem dúvida, o que importa dessa noite não foram as presenças ilustres na plateia, mas a presença muito mais envolvente de todos que fazem parte dessa história. Após o show, circularam imagens, vídeos e comentários belíssimos a respeito, capturando apenas uma fração do que foi presenciado. Quando somos reconhecidos, nada é dado, geralmente só levemente cedido. Dito isso, eu não perderia a oportunidade de ver que a rachadura cedida pode aumentar, agora pela banda Aygam no dia 27 de agosto no Prata da Casa. Sobre mais detalhes deste show memorável da Nigéria Futebol Clube, temos Vitu Valente resenhando por um certo olhar o indescritível, muito bem, na Gazeta de São Paulo. Agora, o texto feito por Omar (Substack: omarresenha1), baterista da banda Aygam, é o relato definitivo e certeiro, demonstrando a prova de toda a questão abordada neste breve comentário. Construção e leitura verdadeiras só são possíveis por quem compartilha na pele vivências e espaços. Por favor, LEIAM!

Fomentar cultura e show business são incompatíveis.

O uso excessivo da palavra "cultura" dentro do ambiente de negócios pode ser nocivo ao seu entendimento; a melhor denominação é "indústria do entretenimento". O seu produto é um passatempo com função de calmante, sem apego a origens ou ao desenvolvimento. Nele, a coerência é facilmente trocada por direções de menor risco e maior expectativa de lucro. Vivemos em pura dissuasão de uma estrutura maior, que provoca uma escalada de estresse, enquanto o outro lado da equação calcula as vantagens de ocupar todos os nossos segundos de distração. Ao fomentar cultura, estamos falando do oposto: a lógica comercial e suas métricas não servem. Então, beleza, qual é o x da parada? O entretenimento pop não tem valor social? É exatamente essa a questão, meus amigos; esse espaço na nossa vida vale muito. Encontramos identificação, significado e até subvertemos o que é pop para outras formas. Porém, com o consumo sendo prioridade, estilos e histórias são explorados e terminam esvaziados. Já a cultura na mão da população nunca se esgota: ela caminha, cresce junto e a criatividade nunca tem fim. Esse é o futuro que desejamos ver acontecer.


Até a Próxima.

Comentários


Logo

© 2024 por Veganasso Produções Artísticas

Um espaço de acolhimento e respeito,
dando voz à arte periférica e
à luta pela equidade entre os seres vivos
  • Youtube
  • Instagram

Av. Doutor Assis Ribeiro - 8012

bottom of page